Na era do Fake, nada substitui a vivência.
Nesses tempos em que qualquer um pode postar fotos e vídeos bacanas e fingir autoridade, algumas ideias são importantes para separar o joio do trigo. As redes sociais e a facilidade de divulgação de serviços criada pela Internet permitiu que muita gente ofereça coisas aparentemente iguais, mas com profundidades de conhecimento muito diferentes.
Em qualquer mercado, o que diferencia o especialista do curioso é uma palavra que reflete uma enorme uma coleção de experiências. Eu vou chamar isso de VIVÊNCIA.
O preço da vivência é alto, porque você investe muito da sua vida para tê-la.
Mas nada substitui a vivência, o estar lá, o ter feito.
Não é que lhe contaram como é, ou que você viu algumas aulas online a respeito.
É que você foi lá e fez. Colocou as horas, dedicou anos da sua vida.
Aqui inclusive a a coisa fica interessante: se você tem vivência real e profunda, você se identificou perfeitamente com o que eu escrevi até aqui na abertura desse texto.
Como eu não conheço as vivências que você tem (você mesmo, que está lendo esse texto), eu vou usar algumas das minhas para ilustrar alguns pontos aqui, mas você deveria ler pensando nas suas vivências e diferenciais, porque esse não é um artigo sobre mim, mas sobre o valor da vivência, da experiência direta, em primeira mão.
A parte mais visível do meu trabalho talvez seja preparar pessoas para os grandes palcos mundiais, como os eventos TEDx, SXSW, ou para falar na ONU, nos grandes eventos mundiais de tecnologia ou congressos médicos e científicos. Mas noventa por cento do meu tempo é dedicado a preparar executivos, C-levels, CEOs e presidentes de empresas para falar em público, principalmente para seus boards, times e equipes. E aí existem outras vivências que fazem toda diferença. No meu caso, ter mais de 30 anos de envolvimento em negócios. Negócios reais, produzindo resultados reais no mundo real. No papel de diretor de empresas, de diretor geral de empresa, de conselheiro de empresas e universidades. Porque.. é tão diferente pensar um palco como o TED em relação a pensar a fala do presidente na convenção da empresa. Tão diferente. Porque num palco famoso onde o entretenimento tem um papel muito importante, os valores em destaque são outros. Existem necessidades no mundo corporativo que não estão nos palcos dos grandes eventos. A fala do presidente no evento da empresa tem de levar em conta as relações entre ele e as equipes. As políticas internas. Os aspectos sucessórios das diversas áreas. Os resultados do último trimestre, do ultimo semestre, dos últimos anos. As expectativas e metas da matriz. Tudo isso é sutil, complexo. Não é porque alguém me diz num briefing de meia hora que eu sei o que é lidar com isso: eu sei porque eu estive lá, vivi o desafio, gerenciei a crise. Não é porque alguém me contou. É porque eu vivi. Então quando o CEO ou o presidente tem diante de si um conjunto de desafios como esse, ele não precisa me explicar uma série de considerações essenciais, porque as décadas que eu passei nas empresas, na agencias e nos conselhos, me prepararam para isso.
A segunda parte mais visível do meu trabalho talvez seja preparar influenciadores, gente muito famosa e conhecida. Alguns, conhecidos do grande público, como a Camila Coutinho ou o Romulo Estrela ou a Mariana Rios ou a bi-campeã Olímpica Sheilla Castro; outros conhecidos do seu público específico, médicos e cientistas, como o Presidente do Hospital Albert Einstein, o Conselho da Beneficência Portuguesa ou da UHG AMIL, promotores, advogados e juristas. Gente que está exposta de um modo diferenciado ou específico. E aí, essas pessoas não precisam me contar o que é isso. Porque eu passei décadas lidando com RP e assessorias de imprensa, grandes estrelas e grandes veículos de comunicação. Comprando mídia nas agencias, fazendo planejamentos, criando campanhas de comunicação e grandes eventos para impactar um público amplo, para mexer com o mercado, para lançar um novo carro, um novo produto, um novo plano de celular, uma nova operadora. Porque eu sentei pra discutir campanha e mídia e como e onde colocar milhões de investimento em comunicação com o McDonalds, a Disney, a Nike, a Rede Globo, o Wal-Mart. o Magazine Luiza, a General Motors e a AMBEV.
E se alguns executivos e profissionais se sentem incomodados porque parece que estão lidando com gente que trata a fala pública de modo muito superficial, é isso mesmo. Tá cheio de gente que mal teve 3 anos de trabalho em negócios de verdade, e acha que preparar um CEO para apresentar resultados para o Board internacional da companhia é a mesma coisa que preparar alguém para o palco do TED. Não é. É imensamente diferente. E resulta muito diferente. Porque fala pública não é teatro. Não é interpretação. Não é fingimento. Não é apenas performance. Não é apenas contar histórias. Mas para entender essa profundidade, é preciso ter vivido, ter vivência, ter a experiência real em primeira mão.
Agora pense nas suas vivências.
Pense nos lugares onde você esteve, onde executou e implementou estratégias, onde definiu orçamentos de milhões ou fez a gestão de dezenas, centenas ou milhares de pessoas.
Percebe como não dá pra alguém que tem pouca experiência na vida empresarial e corporativa entender em profundidade o que é a realidade e a pressão destas situações?
Percebe como não dá pra alguém que experimenta o palco como ator ou intérprete fazer o salto de entendimento para essas realidades corporativas e empresariais? Que não dá pra um especialista em entretenimento colocar todas essas décadas de entendimento e sutilezas dentro da cabeça para poder treinar um executivo do modo que é necessário?
É exatamente por isso, por exemplo, que eu não trabalho com preparação de políticos em campanha eleitoral. Eu não tenho vivência com isso, não tenho o conhecimento da verdade, dos desafios e do dia-a-dia da coisa.
Então, a ideia aqui é: observe e se informe sobre a história de vida e as vivências reais das pessoas vendendo serviços pelas redes sociais mundo afora.
E, do mesmo modo, quando quiser destacar o que você faz: traga para o seu discurso os seus diferenciais. As cadeiras que você ocupou. Os milhões que você negociou ou produziu como resultado. Os produtos que você colocou no mercado. Os investidores que você convenceu a colocarem recursos nas suas ideias.
E finalizando: se esse texto ficou longo, é porque não cabe profundidade de ideias em 140 caracteres. Nem no videozinho de 60 segundos. Profundidade e conhecimento real requerem tempo e dedicação, seja para viver, para realizar, e também para escrever (e para ler) o artigo. Essas são coisas que separam aqueles que movem o mundo, dos meros curiosos. Isso diferencia quem cria resultados e muda negócios daqueles que apenas sobem num palquinho para repetir frases de efeito bonitinhas ou motivacionais.
É sobre ter feito, ter realizado, ter estado lá.
Não há substituto para isso.
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Paulo Ferreira é um dos preparadores de palestrantes mais requisitados do mercado. Publicitário, atuou por mais de 25 anos como diretor de criação e conteúdo em TV e vídeo em alguns dos mais importantes grupos de comunicação do Brasil. Voluntário do TEDx desde 2015, foi selecionado para participar TEDFEST NY; atualmente faz parte dos times que preparam palestrantes para o TEDxSantaCecília (São Paulo) e do @TEDxPaloAltoCollege (EUA). Fundador da StoryTalks, Consultor em desenvolvimento organizacional; terapeuta transpessoal e autor publicado no Brasil, Europa e América do Norte. Professor convidado da Universidade de Coimbra, ESPM, FEA-USP e FGV.
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