Uma frase de um romance lido dez anos atrás. Uma história que você ouviu na infância. Uma personagem que tomou uma decisão inesperada. Um conceito encontrado por acaso em um livro que nem tinha relação com o problema que você estava tentando resolver.
De repente, alguma coisa se conecta e nasce uma ideia.
Costumamos tratar a criatividade como um momento quase mágico. A inspiração chega, a lâmpada acende e alguma coisa que não existia passa a existir.
Só que as boas ideias não surgem “do nada”. Elas são construídas a partir de referências, experiências, conhecimentos, histórias e associações que fomos acumulando ao longo da vida.
É por isso que, para quem trabalha com comunicação, ler não é apenas entretenimento ou aquisição de conhecimento: É matéria-prima.
Afinal, de onde vêm as boas ideias?
Criatividade não significa necessariamente inventar algo que jamais existiu.
Na maior parte das vezes, criar é estabelecer uma conexão nova entre elementos que já conhecemos.
Um conhecimento de uma área ajuda a resolver um problema completamente diferente. Uma história antiga oferece uma maneira nova de explicar um assunto contemporâneo, etc.
Quanto maior a diversidade de elementos disponíveis, maiores as possibilidades de combinação.
É aqui que entra o repertório criativo. Ele funciona como uma espécie de biblioteca interna formada por tudo aquilo que você leu, assistiu, ouviu, viveu, observou e aprendeu.
Quando precisamos criar, é a essa biblioteca que recorremos.
Por que os livros ampliam o repertório criativo
Existem muitas maneiras de construir repertório. Viajar, conversar com pessoas diferentes, assistir a filmes, visitar exposições, ouvir música, observar comportamentos.
Mas a leitura tem uma característica especial. Um livro permite entrar durante horas na lógica de outra pessoa.
Você acompanha um raciocínio que não é o seu. Conhece épocas em que nunca viveu, lugares onde nunca esteve, conflitos que talvez jamais tenha enfrentado e personagens que enxergam o mundo de maneiras completamente diferentes da sua.
Ler também é exercitar a capacidade de imaginar
Quando assistimos a um filme, grande parte do universo já chega pronta. Vemos o rosto da personagem, o cenário, a luz, os gestos.
Quando lemos, precisamos participar da construção.
Se o autor escreve que alguém entrou em uma sala escura, nosso cérebro precisa imaginar essa sala. Se descreve uma personagem, nós ajudamos a construir seu rosto. Se apresenta uma tensão, antecipamos possibilidades.
A leitura exige participação.
Pesquisas sobre diferentes formas de leitura também oferecem pistas interessantes sobre essa relação. Experimentos com poesia, por exemplo, encontraram aumento em dimensões do pensamento divergente, como fluência e flexibilidade, após determinados tipos de leitura.
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Criatividade também depende da distância entre as referências
Existe um erro comum quando alguém decide “buscar repertório”: Consumir apenas conteúdos diretamente relacionados à própria profissão.
Quem trabalha com marketing lê apenas marketing. Quem trabalha com direito acompanha apenas direito. Quem trabalha com liderança procura apenas livros sobre gestão.
Esse conhecimento é importante, claro. Mas existe um valor enorme nas referências de “fora da sua bolha”.
Um profissional de vendas pode encontrar uma ideia sobre negociação em um romance. Um líder pode compreender melhor determinado comportamento lendo uma biografia. Um comunicador pode descobrir uma estrutura narrativa interessante em um livro de história.
Quanto mais distantes são algumas referências, mais interessantes podem ser as conexões entre elas.
Repertório não serve apenas para saber mais, serve para pensar diferente.
O perigo de consumir sempre as mesmas referências
Existe uma ironia na quantidade de conteúdo disponível atualmente. Nunca tivemos acesso a tantas referências.
Ao mesmo tempo, algoritmos aprenderam a entregar exatamente aquilo de que já gostamos.
Assistimos a conteúdos parecidos. Seguimos pessoas com interesses semelhantes. Recebemos recomendações baseadas no que já consumimos.
É confortável. Mas criatividade precisa de algum atrito.
Se você alimenta sua cabeça sempre com os mesmos assuntos, autores, formatos e pontos de vista, aumenta a chance de produzir combinações igualmente previsíveis.
Construir repertório criativo exige curiosidade suficiente para sair, de vez em quando, daquilo que o algoritmo escolheria por você.
Leia autores com os quais você discorda. Alterne ficção e não ficção. Experimente assuntos que não tenham utilidade profissional imediata. Anote frases e ideias que provocaram alguma reação. Pergunte-se por que determinada história ficou na sua memória.
E, principalmente, faça conexões.
Bons comunicadores são, antes de tudo, pessoas curiosas
Para comunicar bem, técnica importa. Estrutura importa. Oratória importa. Storytelling importa. Mas existe algo anterior a tudo isso: ter o que dizer.
Uma pessoa curiosa observa, pergunta, lê, escuta e acumula perspectivas.
Quando chega a hora de apresentar uma ideia, ela não depende apenas de fórmulas. Tem histórias, analogias, exemplos e referências para construir caminhos diferentes até o público.
E talvez essa seja uma das diferenças entre uma comunicação tecnicamente correta e uma comunicação que realmente desperta interesse.
Talvez sua próxima grande ideia já esteja em algum livro
Existe uma frase famosa atribuída a diferentes autores segundo a qual criatividade seria apenas “conectar coisas”. Independentemente da autoria, a ideia permanece interessante.
Para conectar pontos, primeiro precisamos “ter” esses pontos e livros são uma maneira extraordinária de colecioná-los.
E já que estamos falando sobre livros, repertório e histórias, temos algumas leituras para indicar.
Paulo Ferreira acaba de lançar seu livro e Bruno Scartozzoni também transformou parte de seu repertório como storyteller em livro. Bruno é ainda tradutor e prefaciador da edição brasileira de uma importante obra sobre storytelling.
Se você quer continuar ampliando sua própria biblioteca de referências, comece por aqui:
O Visitante: Um Romance de Ficção Científica Espiritualista, de Paulo Ferreira
https://www.amazon.com.br/dp/B0HGM1TH56
Histórias do Banco de Trás, de Bruno Scartozzoni e Bito Teles
https://www.amazon.com.br/Hist%C3%B3rias-Banco-Tr%C3%A1s-Bruno-Scartozzoni-ebook/dp/B0D94XJD9N/
Storytelling: Aprenda a contar histórias com Steve Jobs, Papa Francisco, Churchill e outras lendas da liderança, de Carmine Gallo, com tradução e prefácio de Bruno Scartozzoni
https://www.amazon.com.br/Storytelling-Hist%C3%B3rias-Francisco-Churchill-Lideran%C3%A7a/dp/8567389976/
Porque talvez a pergunta não seja apenas “de onde vêm as boas ideias?”.
Talvez seja: com o que você tem alimentado as suas?